Em que precisavas mesmo de um abraço de uma pessoa, mas não vai acontecer.
Hoje é o dia.
Eu acredito na compensação. No amor principalmente, acredito. Se o meu amor, que é só meu me fizer algo de bom, acredito que deva ser compensado. Se calhar, compensado não é a palavra certa. Mas colocando as coisas desta forma: se me fizer uma surpresa, um mimo, um carinho, uma atenção eu quase que me sinto na obrigação de retribuir. Mas é uma obrigação boa, sinto que sou obrigado a retribuir, mas faço-o com todo o gosto e amor que consigo. É algo inato em mim, um processo que é despoletado automaticamente. Um processo racional, proveniente de um sentimento irracional.
Depois há o reverso da medalha. Se me tratar mal, se for injusto, intolerante eu faço o mesmo. Por palavras simpáticas, retribuo o favor, pago na mesma moeda. Usando o termo certo: vingo-me.
Poderão dizer que não é a forma correcta de resolver as coisas, assumo, não é. Da mesma forma que não é correcto fazer algo de menos bom a quem amamos. Acção reacção, digo eu, ser infantil dirão outros.
Mas pergunto eu. Se quem acha que no amor não deve de haver a tal compensação, a tal retribuição quando o nosso amor nos fez algo de bom (por exemplo, ele fez porque quis, gostei muito, teve um gesto lindo. Mas só o fez porque quis e eu não lhe pedi nada, como tal não me sinto na obrigação de retribuir. Só porque o meu amor me fez uma coisa boa não sou obrigado a fazer algo.), então nesse caso terá moral para pagar na mesma moeda, quando o nosso amor nos fez algo de errado?
Que moral haverá, para poder apontar o dedo? Corrigir? Criticar? Se há essa moral, então isso quer dizer que, o bem e o fazer bem são tidos como certos e se algo de errado for feito aí temos toda a legitimidade para criticar?
Não acho que haja esse direito, não considero que seja justo.
Quem não retribui quando algo de bom é feito, também não tem, não pode, não deve criticar, quando algo de mau acontece. Mas este é o mundo em que vivemos, todo fodido, todo trocado.
"...perde-se a magia..." e eu fui obrigado a concordar. Há coisas que queremos que sejam só nossas, que mais ninguém possa usufruir delas e quando descobrimos que há mais alguém a desfrutar desses pequenos gestos ou palavras, há algo que muda cá dentro. Os gestos já não parecem tão genuínos, as palavras já não têm o mesmo impacto, não conseguimos voltar a sentir a tal magia que se perdeu. E queríamos tanto que essa magia fosse única, que fosse só nossa, mas já não é.
depois vem a vida, prega-te um estaladão de todo o tamanho, dás por ti encostado a um canto sem te conseguires mexer, como um boxeur que acabou de ficar ko e nem a contagem do árbitro consegue ouvir. Nem sequer tens hipótese de reagir, num momento estás de pé a pensar que vais conseguir passar mais um round, que vais sair vitorioso, que vais poder levantar os braços e festejar, que apesar das dificuldades conseguiste ultrapassar mais esta prova... mas num milésimo de segundo, tal como a velocidade de uma bala és atingido em cheio, naquele ponto que te desliga, naquele ponto em que todo o teu corpo faz um shutdown, onde há a junção do maxilar. Esse ponto é crítico, e um murro bem assente nesse ponto, sabes que não tens a mínima possibilidade de reacção, não sentes dor, nem medo. A única coisa que sentes são as tuas pernas a falhar, sem forças, os teus braços desistem de proteger a cara, em menos de um segundo estás no chão indefeso, inerte, frágil. Um golpe, só isso. Sabes que a única coisa que te pode salvar é conseguires levantar-te antes do árbitro chegar aos dez... e nada continua a fazer sentido, com os olhos fechados, punhos cerrados e com todo o teu corpo a tremer de tão frágil que está, tentas reunir forças sem saber bem como, a contagem continua, dez, nove, oito...ainda não te mexeste, continuas a tentar recuperar o fôlego, sete, seis... tu consegues dizes a ti próprio, um joelho sai do chão, os braços tentam erguer o teu corpo, consegues erguer o tronco, cinco, quatro,três... apoias as duas mãos sobre o joelho que já saiu do chão, soltas um grito parecido com o de um animal selvagem, tu consegues... dois, um... segundo joelho, sentes agora o teu corpo a erguer-se lentamente, zero...
Olhar desesperado, procuras o sinal do árbitro para continuar, não sabes se conseguiste levantar-te a tempo.
Conseguiste... venha o próximo round, ding, ding...